Cheias de 2026 – O Tejo Engoliu o Castelo de Almourol
Cheias de 2026 – O Tejo Engoliu o Castelo de Almourol
Publicado em 26 de Fevereiro de 2026 | Vila Nova da Barquinha – Situação actualizada diariamente em https://welcome-to.pt/castelo-de-almourol-aberto-ou-fechado/.
O cais de acesso ao Castelo de Almourol foi rio abaixo. Não é metáfora. A água do Tejo simplesmente cobriu tudo — o estacionamento, as ruas ribeirinhas, os parques. E o Município de Vila Nova da Barquinha fechou o acesso ao castelo ao público. Um dos monumentos medievais mais icónicos de Portugal, plantado na sua ilhota no meio do rio, rodeado não pelo Tejo habitual mas por um Tejo que não pedia licença para nada.
Isto aconteceu em fevereiro de 2026, quando as depressões Kristin, Leonardo e Marta se combinaram numa espécie de cocktail atmosférico particularmente mau. Portugal ficou encharcado. Os solos saturaram. As barragens encheram. E o Tejo, que já foi guardado por um castelo templário, desta vez não havia castelo que o travasse.

Os Números que Fazem Impressão
Às 10h00 de um dos dias mais tensos da crise, as barragens a montante estavam a debitar o seguinte: Castelo de Bode com 600 m³/s, Pracana com 1.025 m³/s, e Fratel com assombrosos 5.800 m³/s. Somado tudo, o caudal acumulado em Almourol chegou a 7.414 metros cúbicos por segundo. Para ter uma ideia do que isso significa — porque um metro cúbico por segundo é já muita água — imagine uma piscina olímpica cheia a cada 3 segundos, a passar pelo mesmo ponto. Agora multiplica por 7.414.
No dia seguinte, ainda pior: 7.839 m³/s registados às 11h00 na estação de Almourol. A Fratel sozinha estava a dar 4.611 m³/s, com Castelo de Bode a contribuir com 880 m³/s e Pracana com 300 m³/s — um total de 5.790 m³/s só das barragens. Os restantes cerca de 2.000 m³/s vinham das ribeiras da região, que também não aguentavam mais chuva nos solos já completamente encharcados.
E o pico? Registou-se em Abrantes: 8.000 m³/s. Mas em Almourol chegou-se muito perto.
Fenómeno Centenário
Há um detalhe que o presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil de Santarém, Manuel Jorge Valamatos, não escondeu: a surpresa. “Só às 05h00 tivemos informação de que as descargas das barragens a montante duplicaram.” Até à madrugada, as previsões apontavam para um acumulado de 3.500 m³/s em Almourol. Acordaram com o dobro. O cenário mudou durante a noite, drasticamente, e quando a população acordou, grande parte das zonas ribeirinhas já estava debaixo de água.
Isto é importante perceber. Não foi um processo lento e previsível. As barragens, quando atingem a sua capacidade, têm de fazer descargas. É procedimento normal – ou a água sai controlada, ou sai de outra maneira menos controlada. A questão é que quando várias barragens abertas ao longo do mesmo rio disparam descargas ao mesmo tempo, o efeito cumulativo a jusante é muito maior do que qualquer uma delas individualmente. Fratel, Pracana, Castelo de Bode — todas a debitar juntas, com as ribeiras ainda por cima a contribuir, foi demais para o Tejo absorver sem consequências para as margens.
O alerta vermelho foi declarado. O nível mais elevado de uma escala de quatro — “risco extremo de cheias significativas”, com mobilização imediata de meios de proteção civil e do Exército Português.
E Tudo o Tejo Deixou Submerso – Almourol e Arredores
A lista é longa e dói um bocado de ler. Só em Vila Nova da Barquinha: o Cais do Almourol submerso, o Cais de Tancos submerso, o Parque Ribeirinho inundado, a Rua do Tejo cortada, a Rua da Barca e a Rua do Sal em risco. O Barquinha Parque ficou totalmente inundado e interdito ao público.
Em Constância: o parque de estacionamento ribeirinho coberto de água, a Rua do Tejo submersa, a Estrada do Campo inacessível, toda a zona ribeirinha da vila debaixo de água, e até a Praça Alexandre Herculano submersa. Em Entroncamento, a Estrada Municipal 1179 desapareceu debaixo do rio. Em Torres Novas, a EM 570 em direção à Golegã ficou cortada.
Não foram só estradas e parques. O cais da Hidráulica e o próprio cais do Castelo de Almourol foram, segundo o presidente da Câmara de Vila Nova da Barquinha, Manuel Mourato, “arrastados pela corrente”. O cais de Tancos ficou com danos estruturais, deslocado da posição original. No parque ribeirinho havia equipamentos infantis destruídos, gradeamentos e mobiliário danificados. Árvores derrubadas por todo o concelho. Infiltrações na Igreja da Misericórdia, no Centro Cultural de Tancos, na Igreja local. O autarca foi direto: “Sofremos aqui um dois em um: primeiro a tempestade, sobretudo a Kristin, e logo depois as cheias.”

O Guardião do Tejo Já Não é Almourol
O Castelo de Almourol é chamado “Guardião do Tejo” nalgumas referências. Durante séculos, o castelo templário construído no século XII olhou para o rio de cima da sua ilhota rochosa. Desta vez, o rio olhou para ele. E foi mais um Gigante da Natureza.
O castelo ficou inacessível ao público não porque estivesse em perigo direto — a ilhota mantém-no acima da linha de água mesmo em cheias graves — mas porque chegar até lá era impossível. O cais de embarque desapareceu. As estradas de acesso ficaram submersas. E a Proteção Civil apelou à população para ficar longe das margens do rio, aviso que toda a gente sabe que nem toda a gente cumpre, mas que desta vez tinha fundamento real e visível.
Ontem, Hoje e Amanhã
Fevereiro de 2026 e as cheias do Tejo têm uma história longa em Portugal. Não é novidade que o rio transborde — já o fez muitas vezes ao longo dos séculos, e há registos históricos de eventos semelhantes ou piores. Mas a frequência e a intensidade importam. E a combinação de barragens cheias, chuva intensa e solos saturados cria uma receita que, quando se junta tudo ao mesmo tempo, ultrapassa rapidamente os limites de qualquer sistema de proteção civil, por mais bem organizado que esteja.
O “Guardião do Tejo” desta vez ficou isolado na sua ilhota, rodeado por um rio que ninguém conseguia atravessar e, literalmente, metia medo. Os cais destruídos vão ser reconstruídos. As estradas vão reabrir – mas vai ficar na memória, pelo menos por um tempo.
A normalidade vai demorar a retornar mas quando for – iremos estar aqui para os receber.
Informações e Reservas: 📞+351 927 228 354 📧 posto.turismo@welcome-to.pt 🌐 welcome-to.pt/castelo-de-almourol 💶 10€/pessoa | Duração: 1h45





